Rodrigo Bettencourt da Câmara - Hamburgo Bar

RODRIGO BETTENCOURT DA CÂMARA
> HAMBURGO BAR

FOTOGRAFIA

INAUGURAÇÃO > 03 Abril 09 > 21.30 horas

EXPOSIÇÃO > 03 Abril a 02 Maio 2009


Hamburgo Bar, Cais do Sodré, Lisboa.

Situado no Cais do Sodré, o Hamburgo Bar abriu em 1970. Na sua cave existia o Acrópole; na mesma zona ainda perduram o Tókio, o Liverpool, o Oslo, o Texas, o Jamaica, o Irish, o Dublin, o Europa, o Copenhague, o British e o Bar Americano; tudo lugares do mundo.
Desde sempre que o Cais do Sodré tinha sido um local desaconselhado pelos guias turísticos. A sua fama de "pouco saudável" justificava-se por ser mal frequentado. Era onde existiam pensões e tascas baratas, onde se encontravam os marinheiros, camionistas e outras pessoas em situação de trânsito.
Em tom de brincadeira, o Siege contava a história do amigo que tinha na embaixada alemã: "Eles tinham que recomendar aos marinheiros que não fossem para o Cais do Sodré e o meu amigo dizia: "Não vão ao Bar do Siege!", como se estivesse a recomendar... "o primeiro sítio que lhes dizem para não irem, é para onde vão a correr" (risos).
Seis da Tarde.
O Hamburgo Bar abre as portas (mais meia hora, menos meia hora).
No seu exterior, víamos o testemunho escrito de várias gentes que por ali entraram, a carta de convite para qualquer "turista" (ou curioso) que procurasse algo diferente. Por vezes, o Siege vinha à porta e comentava com o vizinho enquanto acendia mais um cigarro: "Andamos todos ao mesmo...!"
Em 1978, Siege mudou-se para Portugal por motivos profissionais: "A empresa (de camionagem) não conseguia receber... era necessário abrir... estar junto do cliente e pressionar os pagamentos".
Na altura, "isto era o paraíso, uma mina de ouro, o melhor país da Europa. Vim ganhar o dobro do que ganhava na Alemanha!". Siege, sendo imigrante, nunca se comportou como tal. Parecia ser o dono do mundo. No seu pequeno bar tem passado o mundo inteiro. Falar em globalização, neste ambiente, tinha sido algo antigo e comum.
Desde logo começou a frequentar o Cais do Sodré. "Os camiões chegavam à sexta-feira e só voltavam a estar carregados passados cinco ou seis dias... Durante a semana ficávamos pelo Cais do Sodré, onde todos os camionistas e marinheiros se encontravam; vínhamos cá gastar o nosso dinheiro: sexo, copos e conversa. Esses é que eram tempos. Ou se ia para o Intendente, para o Bairro Alto ou vinha-se para aqui."
O Cais do Sodré era o lugar dos estrangeiros. Em 1995, a empresa onde o Siege trabalhava faliu; recebeu a sua indemnização e concretizou o seu sonho de "passar para o outro lado". Comprou o Hamburgo Bar. Desde sempre se tinha imaginado dentro do balcão; "Os outros perderam um cliente e ganharam um concorrente... Deram-me seis meses e... ainda aqui estou."
Durante um trabalho de fotografia naquela zona, todas as pessoas nos olhavam com ar de reprovação, ou gritavam e gesticulavam qualquer coisa do outro lado da rua. O Hamburgo Bar chamou a atenção; o Siege estava à porta e convidou a entrar: "Não lhes liguem...".
Voltámos regularmente, sempre deliciados com as histórias de outros tempos e encantados com o ambiente do Bar. A profusão de símbolos nacionalistas conjugados com testemunhos individuais, sem qualquer conflito. Assinaturas, mensagens, desenhos, boinas, bóias, divisas, postais, bonecos, bandeiras e galhardetes de todos os países do mundo - uma estranha confusão entre o individual e o colectivo. Aos poucos, íamos descobrindo uma decoração espontânea e intrigante. Demos connosco a desvendar mensagens.
Entre os clientes que fomos conhecendo, descobrimos que tinham em comum um certo fascínio pelo lugar e pela pessoa. "Obrigado pela música que nos faz chegar mais depressa a casa" - estava escrito num postal que o marinheiro francês nos mostrou, dizendo: "Este fui eu que mandei. É a 13ª vez que venho cá! Este lugar é único; é o nosso bar!".
"Nunca fecho. No último Natal tive cá pessoas de 22 nacionalidades diferentes. As que não cabiam cá dentro estavam lá fora!", dizia o Siege com orgulho.
Acumulámos mais de 6 horas em filme; "Aquilo é espectacular!", dizia com razão alguém que lá convidámos a entrar pela primeira vez.
Cada sessão lá passada encurtava a distância entre os dois lados do balcão e facilitava a conversa seguinte. Nunca passámos para a entrevista. Apresentámo-nos como estudantes de arte que procuravam reunir material para explorar. Quando falámos sobre a estranha longevidade do bar, descobrimos que o Siege era também um pouco como nós, procurava seleccionar a clientela e tinha-se nivelado diferenciadamente com a mesma. A atitude que tinha perante um oficial americano, um cadete francês ou um taxista do bairro era... diferente, mas sempre de predador; também ele explorava a sua clientela. Todo o ambiente se harmonizava. Tinha música e (de) coração de todas as nacionalidades, para todo o tipo de clientes.
Na essência, tomámos o bar como um lugar de resistência ao tempo e à mudança. A Anna, a terceira mulher de Siege, russa, continuava a ler Tolstoi e Dostoiévski discretamente, do outro lado do balcão. A Teresa entrava e saía frequentemente, colocando-se no centro da atenção dos marinheiros: "Wanna go?".

Rodrigo Bettencourt da Câmara




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